Kneecap transforma o Cine Joia em pista de protesto e confronto político
Com 15 minutos de atraso, o trio irlandês estreia no Brasil entre graves eletrônicos, rap em irlandês e inglês e uma apresentação que encontra ressonância particular no ambiente político brasileiro às vésperas do segundo turno.
O Kneecap não é uma banda interessada em separar música e política. Na noite de sexta-feira, 23 de outubro, no Cine Joia, em São Paulo, essa característica ganhou uma dimensão especial. Na primeira apresentação do trio irlandês no Brasil, a combinação de hip-hop, eletrônica e punk-rave encontrou um público diante de um país novamente atravessado pela disputa política, a poucos dias do segundo turno das eleições.
O horário anunciado para a apresentação era 22h. O grupo subiu ao palco com 15 minutos de atraso, às 22h15. Foram apenas quinze minutos, mas o detalhe merece registro em uma noite cuja expectativa era proporcional à reputação que Mo Chara, Móglaí Bap e DJ Próvaí construíram internacionalmente. A espera, por si só, não define a qualidade de um show; o que importa é o que vem depois. E o repertório apresentado no Cine Joia deixou claro que o Kneecap tem muito mais a oferecer do que a imagem de provocador político que frequentemente acompanha o trio nas manchetes.
A apresentação aconteceu em um momento particularmente carregado no Brasil. Às vésperas do segundo turno, o ambiente político nacional dava outro peso às questões que atravessam a obra do grupo: identidade, poder, resistência cultural e o direito de contestar as estruturas dominantes. Não se trata de equiparar a história irlandesa à realidade brasileira, mas de reconhecer que certas tensões encontram ecos em sociedades diferentes. O Kneecap trabalha justamente nesse território em que a música deixa de ser apenas entretenimento e passa a disputar ideias.
Graves, sintetizadores e uma energia que não depende apenas das palavras
O primeiro aspecto que merece atenção é a construção sonora. Reduzir o Kneecap a um grupo de rappers com mensagens políticas seria ignorar uma das características mais interessantes de seu trabalho: a capacidade de transformar o discurso em experiência física.
As batidas eletrônicas são parte fundamental dessa identidade. Os graves, os sintetizadores e as bases que flertam com o techno, o house e a cultura rave dão ao repertório uma dimensão que ultrapassa o formato convencional do hip-hop. Há também uma atitude punk na maneira como o trio ocupa esse universo sonoro: direta, provocadora e sem muito interesse em suavizar as próprias arestas.
Essa combinação ajuda a explicar por que a música do Kneecap funciona mesmo para quem não compreende todas as palavras em irlandês (chamado localmente de Gaeilge ou gaélico irlandês). O idioma é essencial à identidade do grupo, mas a comunicação não depende exclusivamente da tradução. O ritmo das rimas, a repetição dos refrões, a pressão das batidas e a energia coletiva criam uma linguagem própria.
Em vez de tratar a eletrônica como mero acompanhamento para os versos, o trio a utiliza como instrumento de confronto. O grave movimenta o corpo enquanto as letras provocam a cabeça. É nessa tensão que o Kneecap encontra sua personalidade mais convincente.
Do deboche à afirmação política
A força do grupo também está na maneira como mistura humor, irreverência e temas históricos. A identidade irlandesa não aparece como simples decoração estética, mas como parte central de sua proposta artística. Cantar em irlandês, uma língua historicamente marginalizada durante o domínio britânico, é também uma forma de afirmar uma cultura que sofreu tentativas de apagamento.
Esse posicionamento ganha novas camadas em FENIAN, álbum que amplia a dimensão política e sonora do trio. O próprio título recupera uma palavra associada à história e à resistência irlandesas, mas que também foi empregada de maneira pejorativa contra irlandeses. O gesto de reivindicar esse termo faz parte de uma prática recorrente na obra do Kneecap: tomar símbolos e expressões carregados de conflito e devolvê-los ao debate público.
No Cine Joia, essa perspectiva estava inscrita no repertório. “Gael Phonics” coloca a língua no centro da identidade artística; “An Ra” e “Get Your Brits Out” apontam para o confronto com o poder britânico; “Smugglers & Scholars” dialoga com a memória histórica e o imaginário republicano irlandês. São músicas que exigem mais do que uma leitura superficial das provocações do grupo.
A defesa da causa palestina também integra o posicionamento político do Kneecap, que se tornou conhecido por suas manifestações públicas de solidariedade e por enfrentar reações e controvérsias em torno de suas declarações. Essa postura faz parte de uma visão política mais ampla, marcada pelo anticolonialismo e pela oposição ao avanço da extrema direita. É justamente essa disposição de confrontar instituições e discursos dominantes que transforma cada apresentação em algo potencialmente maior do que uma sequência de canções.
Isso não significa que seja necessário concordar com cada posição do trio para reconhecer a coerência entre sua música e sua atuação pública. Como experiência artística, o Kneecap se torna mais interessante quando o ouvinte percebe que a provocação não está separada da construção musical: ambas pertencem ao mesmo projeto.
“Carnival”, “Fine Art” e a força de “FENIAN”
O repertório apresentado em São Paulo percorreu diferentes momentos da trajetória do grupo, mas deu espaço importante ao universo de FENIAN. “Carnival”, “Gael Phonics”, “An Ra”, “Cold at the Top” e a faixa-título ajudam a compreender a evolução de um trio que não pretende ficar restrito à fórmula que o tornou conhecido.
“Carnival” carrega uma dimensão particularmente reveladora. A música incorpora a experiência do processo judicial enfrentado por Mo Chara no Reino Unido, caso cuja acusação relacionada a terrorismo acabou sendo arquivada. A controvérsia passou a integrar a narrativa pública do grupo e influenciou o ambiente em que o álbum foi concebido. No repertório, a faixa funciona como exemplo de como acontecimentos externos podem ser transformados em matéria artística.
“Fine Art”, por sua vez, remete ao trabalho anterior e à combinação de irreverência, batidas contundentes e referências à cultura rave que ajudou a projetar o trio internacionalmente. Já “FENIAN” concentra a dimensão identitária e política do novo material. A alternância entre essas músicas evita que a apresentação se transforme em uma simples divulgação do álbum mais recente: o setlist mostra uma trajetória em movimento.
Há ainda um detalhe importante na sequência: “Better Way to Live”, faixa associada a Grian Chatten, vocalista do Fontaines D.C., aproxima o universo do Kneecap de outra vertente da atual música irlandesa, embora com uma abordagem sonora própria. A conexão reforça a presença de uma geração que leva a identidade cultural irlandesa para além das fronteiras nacionais, sem abrir mão das particularidades locais.
A política não está fora da pista
A proximidade do segundo turno brasileiro acrescentou uma camada de interpretação à apresentação, mas não transformou o show em um evento eleitoral. O interesse está justamente no contraste entre contextos históricos diferentes e na possibilidade de reconhecer temas comuns: quem tem o direito de definir uma identidade nacional, quais vozes são marginalizadas e até que ponto a arte pode desafiar o discurso oficial.
O Kneecap não oferece respostas simples. Sua estética é deliberadamente provocadora, e sua maneira de tratar questões históricas pode ser desconfortável para parte do público. Mas o desconforto faz parte da proposta. A banda não busca a neutralidade nem tenta esconder suas posições atrás de metáforas vagas.
Ao mesmo tempo, sua música tem uma qualidade essencialmente festiva. A pista e o protesto não são polos opostos. A eletrônica oferece ao grupo uma ferramenta para transformar indignação em movimento coletivo, enquanto o rap dá forma verbal a uma visão de mundo que não pretende ser discreta.
Essa é a principal razão pela qual o Kneecap não pode ser avaliado apenas pelo conteúdo de suas letras ou pelo barulho provocado fora dos palcos. O trio desenvolveu uma identidade musical reconhecível, na qual a produção eletrônica e a cadência vocal sustentam o impacto das mensagens. A política pode atrair a atenção inicial, mas a música precisa sustentar o interesse — e é aí que o projeto se distingue de uma simples plataforma de declarações.
“Bella Ciao” fecha a noite com um símbolo de resistência
O encerramento com “Bella Ciao”, canção tradicional italiana associada à resistência antifascista, foi uma escolha coerente com o universo político que atravessa a apresentação. A música carrega uma história própria, ligada à luta contra o fascismo na Itália, e se tornou um símbolo internacional de resistência.
Sua presença no final do setlist conecta a história irlandesa evocada pelo Kneecap a uma memória antifascista que ultrapassa fronteiras. Em uma semana marcada pela proximidade do segundo turno brasileiro, a escolha inevitavelmente ganhou outra ressonância para parte do público.
Mais do que uma referência histórica, “Bella Ciao” funciona como síntese da proposta do trio: transformar símbolos políticos em experiência compartilhada, sem abandonar o pulso da música. A escolha não elimina as contradições nem simplifica os conflitos abordados pelo grupo, mas encerra a apresentação em sintonia com sua disposição de fazer da cultura um espaço de disputa.
A estreia brasileira do Kneecap no Cine Joia teve, assim, dois elementos que merecem ser considerados em conjunto. De um lado, um grupo que construiu sua reputação por meio de controvérsias e posicionamentos políticos explícitos. De outro, um projeto musical que combina hip-hop, eletrônica e punk-rave de maneira própria, com uma identidade cultural que não se dilui para facilitar a compreensão internacional.
O atraso de 15 minutos foi um detalhe da noite, não seu acontecimento central. O que permanece é a imagem de uma banda que usa a pista de dança como espaço de afirmação e o rap como instrumento de confronto. Em um momento de tensão política no Brasil, essa combinação encontrou um contexto especialmente significativo — sem que fosse necessário confundir a realidade irlandesa com a brasileira.
O Kneecap não tenta separar o que diz da maneira como soa. Seu mérito está em fazer as duas coisas trabalharem juntas. No Cine Joia, a política forneceu o contexto, a eletrônica deu o impulso e o repertório mostrou que, por trás das manchetes, existe uma banda empenhada em construir uma linguagem musical própria.
KNEECAP — Setlist
Cine Joia — São Paulo, Brasil
23 de outubro de 2026
Turnê: FENIAN
- Éire go Deo
- Smugglers & Scholars
- Carnival
- Better Way to Live
- Sick in the Head
- Gael Phonics
- Cold at the Top
- An Ra
- Get Your Brits Out
- Guilty Conscience
- No Comment
- Sayonara
- Your Sniffer Dogs Are Shite
- I bhFiacha Linne
- Fine Art
- Rhino Ket
- Liars Tale
- FENIAN
- Big Bad Mo
- Parful
- H.O.O.D
- THE RECAP
- Bella Ciao (canção tradicional)
