The Horrors no O2 Forum Kentish Town (29/11/2025)Um mergulho escuro, elegante e expansivo — exatamente como a banda quer que você se sinta
Em plena Night Life Tour, o The Horrors voltou a Londres com a confiança de uma banda que sabe exatamente quem é — e que, ao mesmo tempo, continua se reinventando dentro das sombras. No O2 Forum Kentish Town, Faris Badwan e companhia entregaram um show que equilibrou brutalidade e transcendência, nostalgia e modernidade, barulho e beleza. Foi uma noite em que o art rock, o shoegaze e o synth-driven noir pareciam se dobrar uns sobre os outros até formar uma massa sonora magnética e hipnotizante.
Eles abriram com “The Silence That Remains”, um início quase ritualístico, guiado por camadas densas de sintetizadores e pelo vocal cavernoso de Faris. A partir dali, o set se desdobrou como uma travessia por todas as eras da banda. “Three Decades” e “Mirror’s Image” reacenderam o vigor pós-punk de Primary Colours, enquanto “Silent Sister” e “The Feeling Is Gone” mostraram como o grupo mantém viva a tensão industrial que sempre os acompanhou.
Quando o público parecia já ter sido puxado para dentro da espiral, veio o primeiro grande momento catártico: “Sea Within a Sea”, executada com precisão quase cinematográfica. A transição gradual da calmaria eletrônica para o caos rítmico final foi recebida com braços erguidos e olhos fixos no palco — um daqueles instantes em que a plateia inteira respira no mesmo tempo.
O meio do show trouxe uma sequência mais luminosa, ainda que nunca totalmente livre das sombras. “Endless Blue” abriu espaço para a imprevisibilidade, enquanto “Still Life” — sempre um destaque — foi cantada como um hino pelos presentes. Em “More Than Life” e “Moving Further Away”, o The Horrors reafirmou como poucos conseguem transformar psicodelia densa em algo físico, quase palpável.
O encerramento do set principal com “Who Can Say” reacendeu o lirismo melancólico que marcou o início da carreira, mas a banda guardava ainda mais força para o encore. “Lotus Eater” explodiu em frenesi eletrônico, como se estivesse ali para reanimar qualquer resquício de cansaço do público.
E então, o momento surpresa — e talvez o mais simbólico da noite: um híbrido entre “Weeping Wall” e “Heroes”, de David Bowie. Uma homenagem respeitosa e ousada, que não soou como imitação, mas como apropriação estética — Bowie filtrado pela névoa, pelo eco e pela arquitetura sonora característica dos Horrors.
Fechar com “Something to Remember Me By” foi quase uma ironia poética: a música que já nasceu como clássico moderno continua crescendo ao vivo, convertendo a pista em um clube existencialista e pulsante.
No fim, o show no O2 Forum Kentish Town serviu como prova de que o The Horrors segue sendo uma das bandas britânicas mais consistentes e visionárias de sua geração. Eles não fazem apenas performances — constroem atmosferas, arquitetam estados de espírito. E naquela noite de novembro, fizeram Londres lembrar que a escuridão pode, sim, ser iluminada.
Setlist – The Horrors (29/11/2025 – O2 Forum Kentish Town, Londres)
- The Silence That Remains
- Three Decades
- Mirror’s Image
- Silent Sister
- The Feeling Is Gone
- Sea Within a Sea
- Endless Blue
- Still Life
- More Than Life
- Moving Further Away
- LA Runaway
- Who Can Say
Encore:
13. Lotus Eater
14. “Weeping Wall” / “Heroes” (David Bowie cover)
15. Something to Remember Me By
